
Era a primeira vez do menino. A primeira vez que o garotinho iria ao zoológico. Seu pai prometera e ele esperara a semana inteira, contando os dias para a chegada do domingo. As horas se arrastaram, maldosas, fazendo hora pra passar. Na noite de sábado, o moleque custou a dormir de tanta ansiedade. Iria ver um tanto de bichos diferentes que ele só conhecia pela TV ou pelo computador. Jacaré, tucano, rinoceronte, gorila… E, claro, o maior de todos, o rei da selva: o leão.
O menino tinha fascínio pelo leão. Achava ele o animal mais ágil, mais forte, mais poderoso. Quando o pai o acordou na manhã de domingo com um beijo na testa, nem precisou falar o costumeiro “Vamos acordar, filhão!” O garoto já saltou da cama com a roupa de sair. Havia dormido com ela para perder menos tempo. Engoliu o café da manhã sem nem sentir o gosto, enquanto pai e mãe sorriam da euforia do filho. Arrumaram os últimos detalhes e o menino já estava na porta gritando que estavam atrasados. Saíram.
No caminho, a criança perguntou de minuto em minuto se já tinham chegado. Não, ainda não. Até que uma das respostas veio “Chegamos!” O moleque olhou pelo vidro, lente embaçada, e viu aquele tanto de árvores, um lago e algumas aves coloridas. O carro parou. Foi difícil conter o moleque que queria correr para todos os lados.
Passaram pelo aviário, com os pássaros mais exóticos que encheram os olhos do menino de fantasia. O pavão parece ter feito questão de abrir sua imponente cauda pro garoto, que chegou a achar que era um robô controlado por controle remoto. Não, aquela maravilha era natural.
Chegaram à casa dos répteis e as cobras fascinaram o menino, misto de temor e curiosidade. Gostou das tartarugas, ali paradas a apreciar o mundo, a ouvir o chão. Logo veio a ala dos macacos e o moleque se impressionou com o quanto eram parecidos com ele. Jurava ter visto um senhor igualzinho a um chipanzé.
Assim sucederam-se surpresas e sorrisos puros com as girafas (que pescoção!), os elefantes (ele não faz exercício físico, pai?), os camelos (o que é aquilo nas costas deles, mãe?) e os hipopótamos (com aquela boca ele deve comer um tantão!). Até que chegou a ala dos felinos. Algumas jaguatiricas numa jaula, uma onça descansando, até um tigre dando uma volta. Todos eles arrancaram suspiros do menino. Mas faltava um.
Eis que se abriu, imponente, o espaço do leão. À sua frente estava o grande e redondo fosso onde ficava o rei da floresta. O pai disse que havia um macho e uma fêmea. O menino correu como pôde e só parou na grade de proteção. Subia nas pontas dos pés para conseguir ver melhor. Olhou prum lado, olhou pro outro. Nada. Voltou a olhar, dessa vez de forma mais minuciosa, buscando detalhes, possíveis camuflagens, penumbras. Varreu todo o fosso e nada.
O pai e a mãe chegavam atrás, bufando. “Cadê o leão? Cadê o leão?” Os dois olharam e também nada viram. “Deve estar descansando na sua casinha ali”, apontou o pai para uma espécie de jaula de madeira dentro do fosso, escavada no meio de um morrinho. “Daqui a pouco ele sai, filho”, tranqüilizou-o a mãe.
E o menino esperou, olhos atentos. Passaram-se cinco minutos e ele resolveu dar a volta completa por fora do fosso, buscando outros ângulos de visão. Nada. Parou de novo, como um felino a esperar sua presa. O pai e a mãe torcendo pro leão aparecer. Mais cinco minutos. Dez. Quinze. Vinte. Nada. Os pais já ficavam sem paciência, mas o garoto aguardava resoluto.
Foi quando pintou um movimentar de juba na porta da tal jaula de madeira. O menino urrou de alegria, apontando “Ali! Ali! Ali!”. A mãe se sobressaltou, o pai sorriu. A cabeçorra imponente saiu primeiro. Depois veio o corpo musculoso. O leão, enfim, dava o ar da graça. Andou uns cinco ou seis metros na direção exata do menino, que mal piscava. Depois deitou preguiçoso e ficou estendido no chão, a tomar um pouco de sol.
O menino estava feliz de ver o leão, sem dúvida. Mas queria que ele fizesse mais. Que ele corresse, pulasse, rugisse, atacasse alguma coisa… Enfim, que ele fosse leão. Mas o bicho ficou lá, paradão. O tempo passou e o garoto foi ficando decepcionado. O pai explicou que era um animal em cativeiro, que recebia comida, não precisava caçar, tinha hábitos diferentes dos de um animal selvagem e por isso ficava mais quieto. Não adiantou. O menino deu as costas para o fosso e falou que queria ir embora. Foram.
O garoto nem comeu direito, estava triste. À noite, em sua cama, porém, ao deitar a cabecinha no travesseiro, sorriu. Tinha visto um leão ao vivo. Verdade que o bicho não tinha feito muita coisa, mas não deixava de ser um leão. Quem sabe da próxima vez? O sono foi embaçando seus pensamentos, mas o sorriso não largou o seu rosto. Vira um leão. Era um leão…
…
Por que essa história toda? Simples. Porque foi a melhor maneira que encontrei pra contar como foi a semifinal entre Alemanha e Espanha. Os alemães, tidos por muitos como o “leão da Copa”, geraram grande expectativa por seu futebol diferente, ofensivo, flexível. Mas, contra a Fúria, talvez sentindo a falta de Müller, a Alemanha mal apareceu em campo, com uma formação defensiva que foi muito exigida e pressionada pelos espanhóis.
A Espanha, por sua vez, jogou um futebol vistoso, mantendo a posse de bola, marcando por pressão em vários momentos e com ótimo toque de bola. Envolveu o adversário e boa parte da culpa da Alemanha ter se acuado é, na realidade, da postura espanhola. A Fúria conseguiu o famoso “jogar e não deixar jogar”, um mantra do futebol moderno.
Os espanhóis vão a uma final inédita. Aos germânicos, resta a disputa de terceiro lugar. Isso não faz com que deixem de ser leões, como sempre foram e sempre serão em Copas do Mundo. Mas, dessa vez, foram felinos domesticados. Quem foi ver o rugir alemão acabou vendo a juba esvoaçante do leão Puyol, capitão e símbolo dessa interessante Espanha.

***